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domingo, 22 de março de 2015

A Igreja e a Lei Deus - Lição 13

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O enfoque do presente capítulo é a compreensão da lei de Moisés e a sua relação com o evangelho. Trata- -se de um tema de grande complexidade. Disse Lutero: "Quem sabe distinguir corretamente o evangelho da lei deve agradecer a Deus e pode estar certo de que é um teólogo". Os três principais reformadores do século 16 debateram o assunto. Depois dessa série de estudos sobre o Decálogo e cada um dos seus preceitos, resta responder a duas questões: se a moral cristã está fundamentada nas dez palavras ou nos Dez Mandamentos (como aparece em nossas versões da Bíblia) e qual a sua relevância para a Igreja de Cristo na atualidade.


Já havia animosidades sobre o papel da lei de Moisés nos dias apostólicos. Esses debates ajudam a elucidar a questão, mas nem por isso a solucionaram definitivamente. Isso vem desde os galacionistas que se opunham ao apóstolo Paulo e também, em parte, desde os ebionitas, que defendiam a guarda da lei de Moisés. Mas os discípulos desses legalistas ainda estão por aí.

A LEI DE DEUS

A lei de Deus e os Dez Mandamentos não são a mesma coisa. Os Dez Mandamentos encabeçam os demais preceitos entregues por Deus a Moisés no monte Sinai desde Êxodo 19.16-19 até Levítico 26.46; 27.34. Esses preceitos são identificados com frequência como estatutos, juízos, leis e mandamentos. Muitos deles são repetidos nos livros de Números e Deuteronômio. Todo esse sistema legal integra o Pentateuco, que aparece na Bíblia como lei, livro da lei, lei de Moisés, lei de Deus, lei do Senhor.
É oportuno aqui esclarecer o que a Bíblia quer dizer quando usa as palavras "lei de Deus". O termo aparece sete vezes nas Escrituras, quatro no Antigo Testamento e três no Novo, e em nenhum lugar diz respeito ao Decálogo. As quatro primeiras ocorrências se referem a toda a lei de Moisés, ao Pentateuco, como livro: "Josué escreveu estas palavras no livro da Lei de Deus" Os 24.26); "E leram o livro, na Lei de Deus... ele lia o livro da Lei de Deus" (Ne 8.8,18); "e convieram num anátema e num juramento, de que andariam na Lei de Deus, que foi dada pelo ministério de Moisés, servo de Deus; e de que guardariam e cumpririam todos os mandamentos do SENHOR, nosso Senhor, e os seus juízos e os seus estatutos" (Ne 10.29). Assim, as expressões "lei de Deus", "lei do Senhor" e "lei de Moisés" dizem respeito à mesma coisa (Ne 8.1, 8, 18; Lc 2.22, 23). Trata-se do Pentateuco no seu todo, e não apenas do Decálogo, do livro, e não das tábuas de pedra.
As outras três aparecem somente em Romanos, e nenhuma delas diz respeito ao Decálogo: "Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus... Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo, com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado" (Rm 7.22, 25). O termo "lei" aparece cerca de 70 vezes nesta epístola com amplo significado, cuja explanação não cabe aqui. A "lei de Deus" neste contexto contrasta a "lei do pecado", mostrando tratar-se de um princípio. A outra ocorrência é no capítulo seguinte: "Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser" (Rm 8.7). O homem carnal não tem lei nem se submete à vontade de Deus que o apóstolo chama de "lei de Deus".

OS TRÊS TIPOS DE LEI

É comum ouvir falar de lei moral, lei cerimonial e lei civil. Os preceitos morais estão resumidos nos Dez Mandamentos. São os que tratam dos princípios básicos morais (alguns chegam a considerar erroneamente o sábado como preceito moral, ver Capítulo 5). É única porção do Pentateuco escrita pelo dedo de Deus em duas tábuas de pedra. A própria nação de Israel viu e ouviu Deus entregando essa parte da lei a Moisés. Essa é outra característica distintiva do Decálogo. A lei cerimonial é a parte que trata das festividades religiosas, do sistema de sacrifício e da adoração no santuário, dos alimentos limpos e imundos e das instruções sobre a pureza ritual, entre outros. A lei civil diz respeito à responsabilidade do israelita como cidadão; são regulamentos jurídicos e instruções que regiam a nação de Israel. Convém salientar o que já foi dito no Capítulo 1: "Embora essa distinção tripartite seja antiga, seu uso como fundamento para explicar a relação entre os testamentos não é demonstravelmente derivada do Novo Testamento e provavelmente não é anterior a Tomás de Aquino" (CARSON, 2011, p. 179). Os preceitos cerimoniais e civis derivam dos preceitos morais. Esses três tipos de lei estão presentes no Pentateuco, entretanto, tudo é a lei de Moisés.

Há uma interpretação entre os cristãos de que a lei moral é eterna, portanto, para a atualidade. A lei cerimonial se cumpriu na vida e na obra de Jesus Cristo. A lei civil cumpriu sua função até que Israel deixou de ser um estado teocrático, e a Igreja não é um estado. Tudo isso são interpretações. É verdade que a lei cerimonial se cumpriu em Jesus, pois todo o sistema e ritos do tabernáculo apontavam para o Messias. Israel perdeu a condição de estado teocrático (Mt 21.43), e os privilégios de Israel foram transferidos para a Igreja (Êx 19.6, 7; 1 Pe2.9, 10). O Senhor Jesus cumpriu todos os preceitos morais durante sua vida terrena. Em nenhum lugar o Novo Testamento diz que a lei moral se resume a amar a Deus e ao próximo, mas abrange toda a lei: "Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 22.40). O apóstolo Paulo afirma: "Porque quem ama aos outros cumpriu a lei" (Rm 13.8). Em seguida, ele cita cinco mandamentos do Decálogo, mas não na sequência canônica, e depois volta a enfatizar que "o cumprimento da lei é o amor" (Rm 13.10).

OS REFORMADORES DO SÉCULO 16

Lutero entendia as ações de Deus em termos dialéticos e nisso via contraste entre a lei e o evangelho. A lei é a expressão máxima da vontade de Deus. Esse conceito é também defendido pelos judeus, e Calvino segue a mesma linha de pensamento. Segundo Lutero, a lei tem duas funções primárias. A primeira é coercitiva, restringe o perverso e mantém a ordem na sociedade, essa é a lei civil. A outra função da lei é teológica. A lei é santa e perfeita, foi dada para a vida, mas a distância entre sua santidade e a incapacidade humana de cumpri-la faz da lei uma palavra de julgamento. O que era para a vida transformou-se em morte. A função teológica exige do homem algo que lhe é impossível: cumprir a lei totalmente. Mas a lei permite ao homem conhecer o seu pecado, obter o conhecimento de si mesmo com a ajuda do Espírito Santo e em seguida obter o conhecimento de Deus. A lei não salva, mas é um meio de nos levar a Cristo; só é conhecida a partir do evangelho, e o evangelho se torna incompreensível sem ela.
Zuínglio classificava os preceitos da lei em morais, civis e cerimoniais. Os preceitos civis tratam de questões humanas particulares, os cerimoniais foram dados para o período antes de Cristo, e os preceitos morais foram resumidos no Novo Testamento na lei do amor. Para Zuínglio, a lei moral expressa a vontade eterna de Deus e por essa razão não pode ser abolida. Os cristãos estão sujeitos à lei do amor. Assim, a lei e o evangelho têm a mesma essência, são praticamente os mesmos. Zuínglio discordava de Lutero nesse ponto e também da ideia de que a função da lei era ser uma palavra de julgamento de Deus sobre o ser humano, mas dizia que ela estabelece a vontade e a natureza da Deidade.
Calvino trata o assunto no volume 2 de suas Institutas. A redenção prometida em Cristo está presente na lei cerimonial. O valor de todo o ritual do tabernáculo está na sua presença messiânica; o sacrifício e todo o serviço sagrado dos sacerdotes são aceitáveis diante de Deus porque tudo isso aponta para a pessoa e a obra de Cristo. Todos esses preceitos cerimoniais já se cumpriram. Calvino via um tríplice propósito na lei moral, a saber: mostrar o pecado, restringir o perverso e revelar a vontade de Deus. Na sua interpretação, Cristo aboliu a lei cerimonial. A lei moral é a expressão da vontade de Deus; essa vontade jamais pode ser mudada, de modo que a lei nunca pode ser abolida. Cristo aboliu a maldição da lei, e não a sua validade. Assim, Calvino considera a ideia de os cristãos não estarem sujeitos à lei como doutrina antinomianista(Antinomismo). O Senhor Jesus tornou explícito o que estava implícito no discurso do Sermão do Monte, e isso significa que a lei de Cristo não é outra senão a lei de Moisés. Assim como Cristo é o centro do Antigo Testamento e o Novo é a consumação desse fato, há entre ambos testamentos uma sólida continuidade. Trata-se de um relacionamento de promessa e cumprimento.

AVALIAÇÃO BÍBLICA

Parece que a ideia de lei moral, lei cerimonial e lei civil é usada como permissão para que cada um interprete o termo "lei" conforme seu entendimento e conveniência. Uns afirmam que a abolição foi da lei cerimonial e civil, mas que a lei moral é eterna e nunca pode ser abolida. Convém ressaltar que a visão tripartida da lei não deriva do Novo Testamento. É verdade que existem preceitos de caráter moral que são para todos os povos e em todas as épocas, e que outros são para um povo e uma época. Mas em nenhum lugar do Novo Testamento no qual aparece o termo "lei" afirma-se que essa lei é moral, cerimonial ou civil. O que significa quando o Senhor Jesus declara que não veio destruir a lei, mas a cumprir? Ou quando o apóstolo Paulo afirma que não estamos debaixo da lei, mas da graça? Ou ainda quando diz que a lei foi abolida por Cristo?
Jesus disse que veio cumprir a lei: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido" (Mt 5.17, 18). Ainda há muitos expositores do Novo Testamento que tropeçam nessa passagem. A ideia aqui não é confirmar ou estabelecer a lei ou os profetas por meio da vida e do ensino de Jesus. O verbo grego para "destruir" é katalyo,m "destruir, revogar, invalidar". A antítese é "destruir" e "cumprir". O Senhor Jesus não fala em "observar ou guardar", mas em cumprir a lei ou os profetas.

O verbo grego usado aqui para "cumprir" é plêroõ, que significa "encher, preencher, completar", cuja ideia original é espacial (Mt 13.48; At 2.2). Esse verbo aparece 87 vezes no Novo Testamento como "finalizar, terminar, tomar algo completo, pleno” e nunca como "estabelecer" ou "confirmar". O Léxico Grego-Português do Novo Testamento de Louw & Nida traduz esse verbo em Mateus 5.17 como "dar o sentido completo": "Não vim para destruir, mas para dar o seu sentido completo" (2013, p. 362 [33.144]). Se o sentido de plêroõ aqui for de "completar", então Jesus está afirmando ser a plenitude da revelação. De fato, a revelação divina se consumou nele (Hb 1.1,2). Mas a interpretação mais aceita é de que se trata do cumprimento das profecias do Antigo Testamento na vida e no ministério do Senhor Jesus (Mt 1.22; 2.17,19; 4.14; Lc 4,21; Jo 19.36).
A ideia cristológica não se restringe a esses vaticínios e ocupa todo o pensamento das Escrituras hebraicas. A provisão do Antigo Testamento sobre a obra redentora de Deus em Cristo é muito rica de detalhes. Os escritores do Novo Testamento reconhecem a presença e a obra de Cristo na história da redenção (Os 11.1; Mt 2.15) e nas suas instituições e festas (Êx25.8; Jo l.l4;Hb5.4,5;Êx 12.3-13; Lc 22.15; 1 Co 5.7). A lei e os profetas convergem para Jesus; ele é o cumprimento das Escrituras do Antigo Testamento (Lc 24.26,27,44).
A expressão "a lei e os profetas" aparece com frequência no Novo Testamento para designar as Escrituras do Antigo Testamento (Mt 7.12; 22.40; At 13.15; Rm 13.21) ou fraseologia similar (Mt 11.13; Jo 1.45; At 28.23). Mas a presença do "ou" disjuntivo aqui mostra duas partes distintivas, em que nem uma e nem outra é para ser abolida (Jo 10.35). Aqui não se trata apenas dos preceitos morais, e o Decálogo nem sequer é mencionado no Novo Testamento como tal. Jesus fala ainda a respeito da existência de mandamentos menores: "Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos" (Mt 5.19). Isso por si só invalida a interpretação de que a lei é uma referência aos preceitos morais. Existem mandamentos menores entre os preceitos morais? A resposta é não. Jesus, portanto, está se referindo a todo o sistema mosaico e às demais Escrituras do Antigo Testamento.
O jota se refere ao yõd (’),a menor letra do alfabeto hebraico; ocupa a metade da linha na escrita. O til, keraia,139 em grego, "tracinho, parte de uma letra, acento" (Lc 16.17), é um sinal diacrítico para distinguir uma letra da outra, por exemplo D/n; ~l/7; PI/D. A autoridade da lei permanece mantida até no "menor traço." E o termo "lei" no Novo Testamento, às vezes, se estende a todo o Antigo Testamento (Jo 10.34; Rm 3.19; 1 Co 14.21). Parece que o Senhor Jesus se refere aqui às Escrituras, de qualquer forma, seja a lei ou todo o Antigo Testamento, o certo é que não se trata apenas da lei moral. Sua validade se estenderá até o fim das eras. Isso significa até "que tudo seja cumprido". O verbo grego usado aqui para "cumprir" não é o mesmo do versículo 17, mas gínomai, "ser, tornar, vir a ser, acontecer", eõs panta genêtai, "até que todas essas coisas aconteçam" (Mt 5.18b). Logo, não se trata aqui de obediência aos mandamentos; essas palavras não significam obedecer à lei. A ideia é até que todas essas coisas aconteçam. A lei aqui, portanto, não se refere à Torá nem aos mandamentos, mas a todo o Antigo Testamento, que é a base do Novo, e seus ensinos perduram enquanto existirem os céus e a terra.
Voltando ao "menor dos mandamentos", ele é muito importante porque é parte da lei de Deus. O discípulo que declarar insignificante ou não observar o menor desses mandamentos será chamado de menor no reino dos céus, mas o que o cumprir e o ensinar aos outros será considerado grande no reino dos céus (Mt
5.19). Aquele que violar ou abolir esses pequenos mandamentos ocupará uma posição inferior (1 Co 3.12-15). Não significa ficar excluído da felicidade eterna. Agostinho de Hipona, Lutero e Calvino concordam com essa linha de pensamento.
A justiça dos escribas e fariseus era da letra da lei, artificial, externa e formalista. Mas os discípulos de Jesus receberam o Espírito Santo; assim, a justiça deles é interna e profunda, impressa no coração e na alma de cada um com a regeneração (2 Co 5.10). É cumprimento da promessa de Deus desde os profetas (Jr 31.33; Ez 36.27). Por essa razão, o procedimento do cristão precisa superar a conduta dos escribas e fariseus (Mt 5.20).
Outra interpretação inaceitável é a que afirma que a lei cerimonial e a lei civil foram abolidas, mas não a lei moral. O apóstolo Paulo afirma que a lei era transitória (2 Co 3.7-14) e, ao dizer isso, ele inclui as duas tábuas de pedras: "E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória" (2 Co 3.7). O primeiro concerto foi feito com Israel no monte Sinai com a manifestação do próprio Deus diante de todo o povo, e Moisés foi o mediador desse pacto, conforme registra o capítulo 24 de Êxodo. As tábuas da lei com as dez palavras foram entregues num cenário de glória (Êx 19.1-20.22). Já escrevemos sobre isso no primeiro capítulo. A face de Moisés brilhava quando ele descia do monte (Êx 34.30-35).
Javé deu as dez palavras a Israel para que povo aprendesse a andar com Deus, mas as sanções aplicadas aos transgressores no sistema mosaico eram severas. A lei foi dada para a vida (Lv 18.5; Mt 19.17), mas a incapacidade do ser humano em obedecer transformou-a em morte (Rm 7.10). Paulo chama a lei de "ministério da morte" ou "que traz a morte” (NTLH), apesar de ser ela santa "e o mandamento santo, justo e bom" (Rm 7.12). Contudo, a lei não podia ajudar o israelita a praticar a justiça. Stanley M. Horton a compara a um termômetro que pode medir a temperatura mas não gera nem calor nem frio. A lei mensura a justiça e a injustiça, mas não ajuda a tomar alguém justo ou injusto. O problema está no pecado humano.

O código escrito é externo, a obediência a ele pode ser artificial, mas a obra do Espírito é interna, transforma o coração humano e provoca no cristão o desejo de fazer a vontade de Deus. Assim, explica o apóstolo, esse ministério era transitório. Por isso o apóstolo fala dessa antítese: "a letra mata, e o Espírito vivifica" (2 Co 3.6). A lei veio em glória; mas, sendo ela transitória, "como não será de maior glória o ministério do Espírito?" (2 Co 3.8). Isso mostra que os mandamentos ensinados por Jesus no Novo Testamento superam com larga vantagem os preceitos do Decálogo e de todo o Antigo Testamento (2 Co 3.8, 9).
"Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. Pois quê? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum!" (Rm 6.14, 15). Todos nós sabemos que a lei e a graça são princípios opostos (Jo 1.17). Estar debaixo da lei significa aceitar a obrigação de guardá-la e isso implica maldição ou condenação. O apóstolo Paulo declara: "Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gl 3.10). A lei de Moisés é um livro e não duas tábuas de pedra, então o apóstolo está se referindo a todo o Pentateuco. Dizer que se trata aqui da lei cerimonial ou civil nos parece uma camisa de força. Estar debaixo da graça significa reconhecer a dependência exclusiva de Cristo para a salvação.

Considerações finais

Nem o Senhor Jesus nem os seus apóstolos ensinaram o Decálogo. Jesus teve oportunidade em mais de uma ocasião de mencionar os Dez Mandamentos, mas não o fez. Não há tal menção no Novo Testamento, a não ser a citação de preceitos nele contidos. O seu reconhecimento como revelação de Deus e Escritura divinamente inspirada, como expressão máxima da vontade de Deus, é indiscutível. Jamais devemos nos esquecer de que o Antigo e o Novo Testamento vieram do mesmo Deus. Mas sua função na história da redenção humana não deve ser confundida. Assim, o Decálogo tem o mesmo valor das outras partes do Antigo Testamento para o cristianismo.
Devemos obedecer à lei? Tem ela domínio sobre nós? O apóstolo Paulo responde a essas duas perguntas: "Mas, agora, estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra" (Rm
7.6). O cristão jamais deve praticar o que a lei proíbe, pois, apesar de estarmos libertos dela, essa liberdade significa que estamos livres para servir, e não para pecar. Somos servos de Cristo e não da lei, e queremos servir a ele, visto que estamos debaixo da graça não para produzir a salvação, mas porque o Espírito nos guia na obediência.

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Um panorama do Evangelho e de Lucas

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O EVANGELHO DE LUCAS.
 O terceiro relato do Evangelho de Jesus Cristo, de acordo com a presente sequência comum no cânon do NT.
1.Pano de fundo
2.Unidade
3.Autoria
4.Data
5.Local de origem
6.Destinação
7.Ensejo
8.Propósito
9.Canonicidade
10.Texto
11.Problemas especiais
12.Conteúdo
13.Teologia
1.Pano de fundo. O evangelho segundo
Lucas tem sido chamado ‘o mais belo livro já escrito’ (Renan, Les Evangiles, pág. 283). No seu âmago estão a vida perfeita, os ensinamentos de Cristo, a redenção através dele e as vidas daqueles que se agrupavam à sua volta. No Evangelho e em sua contraparte, Atos, mais conhecimento é dado sobre os apóstolos e líderes da igreja primitiva, do que é encontrado em qualquer outro documento. Esse autor, de fato, escreveu mais páginas do NT do que qualquer outra pessoa se, como é comumente aceito, Paulo não tiver escrito Hebreus.
O Gr. nesse Evangelho é reconhecido de modo geral como dos melhores do NT. Ainda que haja, naturalmente, reflexos de fontes semitas, o livro não é mera coleção ou compilação de fragmentos. Ele é um tratado compilado por uma pessoa capaz e bem informada. O que quer que seja que o autor tenha emprestado da tradição oral ou escrita, ele o tomou seu e o dispôs em seu próprio estilo.
É evidente que o autor tinha suas fontes. Ele não reivindicou ser testemunha ocular das coisas que ele descreveu. Antes, afirmou que os fatos registrados lhe foram entregues e aos seus contemporâneos, “os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares, e ministros da palavra” (Lc 1.2). Essas palavras, contudo, contêm também uma importante reivindicação. Embora Lucas não estivesse no grupo apostólico durante o ministério terreno de Jesus, ele insiste em que as suas fontes de informação eram pessoas que tinham visto o que aconteceu desde o início. A exceção de informações especificas em contrário, a passagem parece implicar que Lucas escreveu não somente durante ou perto do tempo dos apóstolos, mas que eles foram a fonte óbvia de muitas de suas informações. Em qualquer caso, ele não pesquisou de modo incompleto ou casual. Ele havia feito uma “acurada investigação de tudo desde sua origem para estar habilitado a escrever uma exposição em ordem” (v. 3).
A maioria dos estudiosos do séc. 20 tem sustentado que Lucas teve acesso a duas principais fontes literárias, Marcos e “Q”, ao que ele acrescentou certos materiais de uma fonte peculiarmente sua, chamada de “L”. Quando a teoria documentária foi desenvolvida, na década de 1860, por Holtz- mann (Die Synoptischen Evangelien, ihr Ursprung und geschichtlicher Character), porém, o que foi considerado como a fonte não foi o Marcos canônico, mas uma forma primitiva na qual o material foi moldado, como um Ur-Evangelho, que veio a ser chamado Ur-Marcos. Foi Streeter, em 1925, quem procurou mostrar que Mateus e Lucas usaram Marcos (The Four Gospels pág. 157). O documento hipotético chamado “Q” tem sido usualmente descrito como um corpo de dizeres ou ensinamentos de Jesus, bastante similar à literatura de sabedoria. Alguns o identificam com o “Logia” que Pápias atribuiu a Mateus. Em geral, considera-se que ele consiste de dupla tradição, do material encontrado em Mateus e em Lucas, mas não em Marcos.
Nesse conceito de fontes, houve relativamente pouca demanda quanto à originalidade na obra do escritor do terceiro evangelho. Os documentos escritos forneceram a maior parte do conteúdo, muito da ordem, e um modelo para uma grande parte da forma. Desvios dos modelos seriam em grande parte questão de preferência e de estilo, mais do que de necessidade. Ele seria mais um editor do que um autor.
A despeito da insistência de que o conceito documentário não precisa mais ser provado (e.g. Moffatt: Introduction to the Literature of the New Testament, pág. 180) e de que “o único resultado absolutamente seguro de um século de discussão erudita... é que o Evangelho de Marcos é o mais antigo que nós possuímos” (e.g. Rawlinson, “St. Mark”, Westminster Commentary), sempre houve vozes dissidentes. A Alemanha teve Hilgenfeld, Zahn e Schlatter. O famoso seminário de Sanday, em Oxford, teve os seus dissidentes, Allen e Bartlet. A voz da objeção não cessou nos Estados Unidos desde os dias de Burton em 1904 (Some Principies of Literary Criticism and their Application to the Synoptic Problem) ao presente. A hipótese “Q” ainda pode ser publicamente desacreditada da tribuna em sociedades eruditas (e.g., The Society of Biblical Literature [1966]) por homens de reputação. Um estudioso ousa escrever um volume de principal importância “para demonstrar que a ideia da precedência de Marcos é altamente questionável” (Farmer, The Synoptic Problem [1964]). A resposta pública de homens da estatura de Mattew Black, de Aberdeen, é a de que, à vista dos dados que vieram à luz, não é mais possível sustentar a prioridade de Marcos. O debate foi reaberto mas não alcançou um novo consenso.
Enquanto isto, pode-se pensar em termos mais abrangentes e flexíveis, sobre as fontes de Lucas, do que as hipóteses documentárias indicariam. Lucas bem pode ter entrevistado mulheres da família de Jesus, ou a elas relacionadas. Relatos procedentes diretamente de testemunhas oculares são prováveis, especialmente durante a estadia de Lucas na Palestina, enquanto Paulo estava na prisão na Cesaréia. É quase certo que tinha relacionamento pessoal com alguns dos apóstolos e outros líderes da Igreja Primitiva. Ele obviamente tinha acesso às informações acumuladas por Paulo. Irineu (Against Heresies, III, i. 1) diz que Lucas “registrou em um livro o Evangelho pregado por” Paulo. Não poderia Lucas ter usado uma multiplicidade de fontes orais e escritas, possivelmente incluindo outro dos evangelhos sinópticos, tratado no contexto de sua própria familiaridade com os lugares e acontecimentos da Palestina, governado por uma forte sensibilidade histórica, influenciadas por uma amplitude gentílica de percepção e ponto de vista, e guiado e inspirado pelo Espírito de Deus? De que outra maneira ele poderia ter produzido tal obra-prima? Uma coisa é certa; ele usou suas fontes, mas não se escravizou a elas.
2. Unidade. Não somente a unidade do terceiro Evangelho é assegurada; existe também um consenso geral de que sua continuação, o livro de Atos, é do mesmo autor. Com base no mesmo destinatário (Lc 1.3; At 1.1), a referência específica ao primeiro no segundo (At 1.1), e as obvias similaridades de estilo, método e materiais, é comum a referência aos dois livros como um volume composto de Lucas - Atos.
A mesma excelência literária que o distingue, caracteriza o todo. Renan chamou-o de o “o mais literário dos Evangelhos”. E o Gr. de um homem educado, caracterizado por um rico vocabulário, contrastes admiráveis, amplitude de interesses, profundidade de percepção e preocupação inteligente com todo tipo de pessoas. Sua orientação gentílica nunca é estreita. Inclui cada filho de Adão. Os pobres, os desamparados, os doentes, os enfermos pelo pecado ocupam o seu pensamento. Ele é sempre um missionário e evangelista, como é o seu Senhor.
Plummer diz que o autor é o mais versátil de todos os escritores do NT (ICC, pág. xlix). Embora seja de formação gentílica, ele é suficientemente informado sobre a sociedade hebraica para ser tão inteiramente hebraico ao descrevê-la, quanto é grego ao descrever a sociedade grega. Do mesmo modo, quando Lucas usa fontes notadamente semitas, como nos dois primeiros capítulos do Evangelho, ele as toma tão completamente suas que elas de modo algum desfiguram a unidade do todo. Com aparente facilidade, Lucas move-se das clássicas formas gregas do Gr. do prólogo, para um grego do tipo da LXX, fortemente temperado com semitismo nas narrativas da infância e prossegue num bom grego koine literário pelo corpo do texto. Não existe uma junção grosseira de fragmentos não relacionados. Como A. B. Bruce diz (EGT, I, pág. 48), “Não importa quais documentos Lucas tenha usado, ele exerceu seu próprio julgamento ao usá-los”. Em nenhuma parte Lucas - Atos deixa de ter a marca distinta e unificadora do gênio e estilo do próprio autor.
Outra marca de unidade é o consistente interesse histórico e perspicácia. Lucas é chamado o primeiro historiador da igreja. Como diz Hayes: “Marcos e Mateus escreveram memórias. João escreveu uma filosofia de religião... Lucas o gentio se impôs a tarefa de escrever um Evangelho histórico, seguindo modelos gentios em certos pontos, e ligando todo o seu relato com a história dos gentios” (The Synoptic Gospels and the Book of Acts pág. 215). Dos escritores do NT apenas ele relata os nomes de imperadores romanos e usa um grande número de nomes próprios para correlacionar épocas e eventos. Do começo ao fim, ele está voltado a relatar o evangelho para o mundo, ao império, a todas as nações e a todos os tempos. Lucas levantou a história sagrada desde a nacionalidade israelita até a humanidade universal. O padrão é consistente em todo Lucas - Atos.
Muito se tem falado sobre a linguagem médica de Lucas. O que quer que possa ser provado quanto à autoria do evangelho por dela, um forte argumento pode ser elaborado em favor da unidade de Lucas - Atos. Se o autor falou como médico, ou como um leigo bem informado, há um padrão consistente, peculiar a esses escritos. Nenhum outro livro do NT se aproxima da frequência com que ele se refere a necessidades médicas, fatos de diagnose, detalhes descritivo das doenças e curas, acompanhamento psicológico e sinais de recuperação. Nem qualquer outro livro contém tão abundante uso casual de vocabulário médico e referências a interesses mais particularmente comuns aos médicos. Qualquer que seja a razão, o fato existe tão persistentemente que constitui uma assinatura do mesmo autor no todo.
3. Autoria. O autor nunca menciona seu próprio nome, exceto por um crédito numa leitura armênia de Atos 20.13, baseada em um texto “Ocidental”, que diz: “Eu Lucas” (F. Bruce, Tlie Acts of the Apostles, pág. 5). Mas, não havia diversidade de opiniões na Igreja Primitiva quanto à sua identidade. Nunca foi mencionada a possibilidade de questionamento de que o autor fosse Lucas, o médico amado, companheiro de viagem e co-missionário com Paulo. Plummer compara a certeza da autoria do terceiro Evangelho com a das quatro grandes epístolas de Paulo (Commentary on Luke, pág. xvi). Irineu faz citações de quase todos os capítulos do Evangelho, sempre se referindo a Lucas como o autor. Clemente de Alexandria, que recebera a tradição passada de pai para filho desde os apóstolos (Stromata I. i. pág. 322, org. Potter), cita o Evangelho com frequência e definitivamente o atribui a Lucas. Tertuliano trabalha com a maior parte do Evangelho em seu tratado contra Marcião, frequentemente chamando-o de Evangelho de Lucas. O Fragmento Muratório não apenas se refere a Lucas, mas também o chama de medicus. Até mesmo Julicher, que em tempos recentes rejeitou a autoria de Lucas, admitiu que os antigos universalmente a aceitavam. Sobre os que rejeitam Lucas como autor pesa a carga de explicar a voz universal dos “Pais” em favor de Lucas. Certamente o nome de Lucas não foi escolhido como um pseudónimo para dar proeminência ao livro. Seu nome era completamente desconhecido, exceto na medida que foi projetado por seus escritos. Como diz Renan: “Lucas não tinha lugar na tradição, na lenda, na história (Les Apôtres, pág. xvii). A única razão para uma associação tão universal do seu nome com os documentos parece ser que Lucas o escreveu e assim se tomou conhecido”.
Ainda que os escritos de Lucas sejam fonte de maior conhecimento sobre os apóstolos, diáconos e evangelistas da Igreja Primitiva do que os escritos de qualquer outra pessoa, ele fala pouco diretamente sobre si próprio. Ele faz uma referência a si mesmo por um pronome no Evangelho (1.3) e usa o pronome “nós” e “nos” diversas vezes em Atos.
Dos escritores do NT, somente Paulo se refere a ele pelo nome (Cl 4.14; 2Tm 4.11; Fm 24). Essas referências e as reflexões do autor em seus escritos tomou possível um conhecimento realmente rico e autentico de Lucas. A lenda, é claro, tem elaborado muito os dados e tem levado à produção de muitas biografias imaginárias de Lucas.
A mais forte evidência interna da autoria origina-se das seções “nós” em Atos (16.10-17;
20.5—21.18; 27.1—28.16). O autor aparentemente foi companheiro de Paulo. Atos 20.4 elimina, como possíveis autores, os nomes de Timóteo, Sópatro, Aristarco, Secundo, Gaio, Tíquico e Trófimo. Silas não pode ser facilmente encaixado nas seções “nós”. Não existe evidência externa nem interna quanto a Tito. Da pessoa que restou, Lucas, dos associados de Paulo, existem ambas as espécies de evidências. O restante de Lucas - Atos é do mesmo autor das seções “nós”, se o estilo, o vocabulário e as marcas usuais significarem alguma coisa. Portanto, é razoável que Lucas deva ser considerado o autor do terceiro Evangelho.
Hobart dedicou mais de trezentas páginas a um estudo da linguagem médica de Lucas (Medicai Language of Luke). Ele considerou quatrocentos termos que foram usados somente por Lucas, entre os escritores do NT, ou que foram usados mais frequentemente por ele que por outros e que foram encontrados também nos escritores médicos gregos. Parece esmagadora a evidência de que Lucas era médico. Cadbury argumentou que a evidência provou apenas que Lucas era um homem instruído (The Makingof Lucas—Acts). Mesmo que se faça uma concessão apropriada à ideia do emprego de linguagem médica por um leigo, a declaração explicita de Hamack quanto ao caso permanece (Luke the Physician). Ele prova que Lucas era médico não apenas pelo seu vocabulário, mas também por uma variedade de características em todos os seus escritos, tais como pontos de vista, preferência pelos milagres de cura, tendência a diagnosticar doenças, interesses característicos de médicos e maneiras de relatar casos resumidos. É verdade que alguns casos isolados pouco conseguem provar. Mas a esmagadora massa de dados parece conclusiva no sentido de que o autor era sem dúvida um médico, presumivelmente Lucas, o único médico conhecido como pertencente ao grupo missionário de Paulo.
4. Data. A questão da data está intimamente ligada à das fontes e à da ordem na qual os evangelhos sinópticos foram escritos. Se o autor tivesse dependido do Antiquities de Josefo para sua referência a Quirino (Lc 2.2), teria sido necessário datar o Evangelho perto do final do l2 séc. A informação do Evangelho é muito diferente da de Josefo para ter vindo daquela fonte. Lucas se refere a um governo anterior (Ramsay: Was Christ Bom at Bethlehem? pág. 227ss.).
Novamente, se o conceito familiar da precedência de Marcos é correta e se, como é amplamente aceito, o Evangelho de Marcos foi escrito próximo à época da morte de Pedro e Paulo (68 d.C.), Lucas deve ter escrito mais tarde. Streeter transpõe esse intervalo inventando um Proto-Lucas, uma combinação de Q e da parte principal do material peculiar ao terceiro Evangelho, ao qual Lucas posteriormente acrescentou os acontecimentos do início e materiais de Marcos (The Four Gospels, pág. 217s.). A ideia de um Proto-Lucas é, naturalmente, objetada por Sparks no Journal of Theological Studies (julho/ outubro, 1943, págs. 129-138). Mesmo que seja necessário concordar que Lucas escreveu depois de 68 d.C., é quase certo que ele esteve coletando fontes por alguns anos.
Se, porém, como um crescente número de estudiosos acredita, não é necessário aceitar a precedência de Marcos, ou se Marcos escreveu antes do final dos anos 60 d.C., uma data mais natural para Lucas toma-se possível. Lucas diz claramente em Atos (1.1) que o Evangelho foi escrito antes de Atos. Se a razão do abrupto encerramento do relato da vida de Paulo em Atos, e do silêncio quanto ao resultado do julgamento em Roma foi, como muitos pensam, simplesmente o fato de que Atos foi escrito enquanto Paulo estava ainda na prisão em Roma, ele deve ter sido escrito no começo dos anos 60 d.C. Então, o Evangelho teria sido do final dos anos 50 ou, anterior a Atos nos anos 60. O fato de Lucas ter passado dois anos ou mais na Palestina, enquanto Paulo estava na prisão em Cesaréia, significa que ele estava a uma distância fácil de cobrir a pé, dos lugares e pessoas que podiam fornecer todos os dados de que ele necessitava. Ele também teria tido o tempo disponível para escrever durante esse período. Baseado nisso, a data em 58 d.C. seria uma boa aproximação, perto do final da permanência de Lucas na Palestina e antes dos ardorosos eventos descritos na parte final de Atos.
A objeção a que Lucas seja tão comumente o terceiro na lista dos Evangelhos é mais aparente que real. Listas antigas parecem não ter sido arranjadas sempre de acordo com a data dos escritos. Houve uma forte tendência de arrolar primeiro os dois apóstolos, Mateus e João. Outros, pensa-se, põem Marcos em segundo porque ele escrevia como um discípulo de Pedro, o proeminente apóstolo. Em qualquer caso, as listas antigas não apresentam ordem uniforme. Origines frequentemente cita os Evangelhos na ordem de Mateus, Lucas e Marcos. Clemente de Alexandria, antes de Origines, pôs os Evangelhos que contêm as genealogias primeiro, baseado na tradição que ele tinha recebido dos anciãos primitivos (Eusébio, Hist., VI, xiv). Lucas também ficou no segundo lugar no Ambrosiastro, no Catálogo dos Sessenta Livros Canônicos, no Antigo Códex Africano Latino, e nos manuscritos 90 e 399. Se Lucas não fosse um dos primeiros evangelhos, seria admirável que, não tendo sido escrito por um apóstolo, tenha sempre sido listado em segundo lugar, especialmente por tão notáveis líderes. A preponderância das evidências tende para 58 d.C., na ausência de qualquer razão que leve à rejeição de uma data anterior.
5. Lugar de origem. Jerônimo, no prefácio do seu comentário sobre Mateus, disse que Lucas escreveu o Evangelho na Acaia e Beócia (Migne xxvi, 18), mas a fonte de sua informação não é conhecida. Suposições modernas quanto à origem do Evangelho variam consideravelmente. Plummer lista os seguintes: Roma (Holtzmann, Hug, Keim. Lekebusch, Zeller), Cesaréia (Michaelis, Schott, Thiersch, Tholuck), Ásia Menor (Hilgenfeld, Overbeck), Efeso (Kõstlin) e Corinto (Godet). Então, ele acrescenta, significativamente, que não existe evidência contra ou a favor de qualquer um. Na falta de necessidade de pensar de outra maneira, Hayes (The Sinoptic Gospels and the Book of Acts, pág. 203) conjetura que Lucas fez sua primeira coleta considerável de material na Palestina, enquanto Paulo estava na prisão em Cesaréia. Aceitando-se uma data relativamente posterior para o presente texto, um dos lugares acima pode ser escolhido de acordo com o tempo e circunstâncias imaginadas. Ou, se Atos foi escrito durante a estada de Paulo na prisão em Roma, Lucas foi escrito ou antes de Paulo e Lucas deixarem Cesaréia, ou logo depois de terem chegado a Roma. Ante a abundância de fontes de informação que Lucas deve ter tido entre os meios apostólicos e outros durante um período de tempo, não há razão pela qual ele não possa ter escrito o Evangelho antes de deixar Cesaréia, a menos que alguém esteja limitado por uma opinião no relacionamento entre o Evangelho e Marcos, o que tomaria essa possibilidade inaceitável. Onde quer que o Evangelho tenha sido escrito, cabe pouca dúvida quanto ao fato de que ele reflete muito material coletado pessoalmente na Palestina, e que o tratamento do material reflete um amplo pano-de-fundo gentílico, que inclui ampla visão missionária e experiência em compartilhar o evangelho com o mundo todo.
6. Destinação. Tanto Lucas (1.3) como Atos (1.1) são endereçados ostensivamente a uma pessoa de nome Teófilo. O fato de que a referência é realmente a uma pessoa, e não simplesmente aos que amam a Deus em qualquer lugar, fica aclarado pelo termo de tratamento “excelentíssimo” (KpáTLaxe), que Lucas atribui aos governadores Felix e Festo (Atos 23.26; 24.3; 26.25). O nome Teófilo era comum entre os judeus e especialmente entre os gentios (Plummer xxxiii). De acordo com as cartas Clementinas, Teófilo era um rico cidadão de Antioquia. O título em Lucas e sua ausência em Atos podem indicar que ele ocupou uma posição no governo antes de se firmar como um cristão. Esse abastado cristão pode ter sido o patrono literário de Lucas, fornecendo a ele o apoio financeiro necessário para a publicação de seus dois livros (Hayes: The Synoptic Gospel and the Acts, pág. 194).
E difícil, porém acreditar, que o escritor do evangelho tivesse em vista apenas um leitor. O livro é muito admiravelmente apropriado a todo o mundo gentio. Enquanto Mateus escreveu sob o ponto de vista judaico e Marcos adaptou o ponto de vista judaico aos empreendedores romanos, Lucas escreveu de uma perspectiva gentílica, no melhor Gr., para o vasto mundo de língua grega. Lucas explicou lugares-comuns judaicos para seus leitores gentios, e.g., que Nazaré ficava na Galileia (1.26) e que a Festa dos Pães Asmos era chamada Páscoa (22.1). A perspectiva é ampla. A genealogia de Jesus retrocede até Adão (3.38). Ele não é apenas o rei dos judeus (Mt 2.2). As boas novas são para todo o povo (Lc 2.10). Profecias que incluem toda carne são enfatizadas (3.5,6). São dadas ilustrações da antiga preocupação de Deus com os gentios (4.25-30). Por todo o Evangelho, os gentios “têm lugar” no plano de Deus da redenção e nos interesses de Jesus. O companheiro de Paulo partilhou a visão missionária e o árduo trabalho para que todos pudessem conhecer e crer. Ele escreveu o Evangelho gentílico para o mundo gentílico em particular, e para o mundo todo em geral.
7. Ensejo. O ensejo imediato pode ter sido o interesse de Lucas no influente Teófilo, que aparentemente havia feito algum movimento em direção à fé cristã. A maneira pela qual ele é indicado como destinatário põe suas necessidades em foco. Se Lucas era também de Antioquia, e especialmente se a sua associação com Teófilo era particularmente significativa, Lucas pode ter estado muito interessado em que um relato completo e autêntico fosse apresentado a esse distinto líder. Se mais um motivo fosse necessário, a experiência missionária de Lucas provavelmente ensinou-lhe que uma multidão de outras pessoas de discernimento poderiam usar o mesmo Evangelho persuasivo.
A interrupção do ministério itinerante de Paulo, por uma prolongada estadia na prisão em Jerusalém e Cesaréia, forneceu o tempo livre necessário. A lealdade de Lucas a Paulo e talvez as recorrentes necessidades de Paulo de um médico, não permitiam distantes campanhas solitárias. Elas permitiram a Lucas fazer “uma acurada investigação de tudo” e escrever “uma exposição em ordem” para que o leitor ou os leitores pudessem ter “plena certeza das verdades em que” foram “instruídos” (1.3,4). Após participar da segunda e terceira viagens missionárias de Paulo, os dados do Evangelho não foram novidade para Lucas. Ele estava em excelente posição para verificar, arranjar e registrar as verdades que havia recebido de várias fontes. As muitas tentativas alheias (1.1) pareceram inadequadas. Com seu treinamento científico superior e maior domínio do idioma grego, Lucas sem dúvida sentiu um ímpeto de Deus para fazer o que os outros haviam apenas tentado. Teria de ser um instrumento melhor para alcançar a mente dos gentios, especialmente entre os cultos e influentes.
8. Propósito. Embora nenhum dos Evangelhos reflita o propósito de ser completo e abrangente no registro de todos os detalhes históricos da vida, ministério e morte de Jesus, definitivamente a história foi um propósito específico de Lucas em seu Evangelho. Ele não tentou investigar os anos silenciosos da infância e início da maturidade de Jesus, ou fazer uma crônica de cada evento que pudesse ser relatado. Ele especificamente fez “acurada investigação”, para dar um relato perfeitamente confiável daqueles importantes eventos e fatos que constituem o Evangelho de Jesus Cristo (1.1-4), os fundamentos históricos da fé. Plummer observa (pág. xxxv) que “Lucas começa bem no princípio, muito antes que qualquer outro evangelista; não meramente com o nascimento de Cristo, mas com a promessa do nascimento do predecessor. E ele continua até bem no fim, não meramente a ressurreição, mas até a ascensão”. Lucas tem também uma quantidade surpreendente de material peculiar a ele próprio, incluindo muitos dos mais belos tesouros que possuímos (Plummer, xxxv). A abundância de dados historicamente relevantes é meta que foi alcançada.
Embora nenhum dos Evangelhos seja destituído de interesse histórico, há uma nova dimensão no de Lucas. Ele seguiu modelos gentílicos em certos pontos e ligou esse relato com a história gentílica do começo ao fim. Ele tem sido chamado o primeiro historiador da igreja. Ele não escreveu com uma meta estreita e controversa. Seu propósito não foi depreciar os Doze em benefício de Paulo, ou justificar Paulo, e nem reconciliar os judaizantes com os discípulos de Paulo (Plummer, xxxvi). O documento não é um documento partidário sob a capa de ficção histórica. Ele é um documento de pesquisa minuciosamente preparada sobre os fatos do Evangelho, para a conversão e confirmação de leitores na salvação que está em Jesus Cristo. O propósito é um evangelho confiável e histórico.
9. Canonicidade. A questão da autoria do terceiro Evangelho por Lucas já foi discutida. Embora Lucas não fosse um dos doze apóstolos, ele foi companheiro de Paulo e aparentemente acreditava-se, em algum sentido, ter falado por Paulo. Tertuliano disse: “Porque até o estilo de Lucas no Evangelho, os homens comumente atribuem a Paulo” (Against Marcion, IV, v). Irineu disse: “Lucas também, o companheiro de Paulo, registrou em um livro o Evangelho pregado por ele”. (Against Heresies, III, i, l). O concurso geral, relativo a esse evangelho, na antiguidade, parece indicar que toda demanda de sua apostolicidade foi atendida na associação com Paulo e com a comunidade apostólica. De acordo com H. Riderbos (The Authority of the New Testament Scriptures, pág. 35): “Autoridade apostólica e tradição apostólica no Novo Testamento não deve ser ligada à pessoa do apóstolo”. O que é apostólico não está limitado à viva vox dos apóstolos, nem aos seus escritos. Alcança existência própria, “impessoal”. O testemunho apostólico, autorizado por Cristo, e inspirado pelo Espírito Santo, pertence ao depositum custodi, o tesouro de cuja guarda a Igreja está encarregada (lTm 3.15; 4.6,12; 6.20; 2Tm 1.14;
2.2). A importância apostólica e canônica de um livro para a Igreja depende em grande medida de seu conteúdo fazer parte da tradição apostólica básica (ibid).
O fato de que o terceiro Evangelho bem cedo foi reconhecido como autoritativo está fora do que seria razoável indagar. Plummer disse que ele já havia sido reconhecido como autoritativo antes da metade do 2- séc. (xvi). Nenhuma mudança abrupta é observada no uso ou aceitação do Evangelho. Tão logo ele apareceu, sua autoridade parece ter sido aceita. Nenhuma questão foi levantada. A medida que o tempo passa desde a era apostólica, palavras explicativas são introduzidas para identificar Lucas e clarificar seu relacionamento com Paulo e a Igreja Apostólica. Tais referências são notadas na seção sobre “Autoria”. As notas de Tertuliano, Irineu, Clemente de Alexandria e o Fragmento Muratoriano vêm desde o fim do 2- séc. e começo do 32, mas as fontes diretamente atribuídas a eles abrangem facilmente meio século anterior. Particularmente no caso de Clemente de Alexandria, sustenta-se que a tradição foi passada de pai para filho desde os apóstolos (Stromata I. i.).
Será que existe evidência, do período entre os apóstolos e esses escritores, da existência e uso do evangelho de Lucas? Existe. Segundo Plummer: “Nós obtemos uma ideia muito imperfeita das primitivas evidências em favor do terceiro Evangelho, quando nos contentamos com a afirmação de que ele não é atribuído a Lucas por ninguém antes de Irineu e do Fragmento Muratoriano” (xv). Justino Mártir cita uma variedade de particularidades que são encontradas apenas em Lucas (I Apol. xxxiv ; Try. lxxviii; lxxxviii, c, ciii, cv, cvi). Seu aluno Taciano usou o Evangelho no Diatessaron. Celso conhecia o terceiro Evangelho com sua genealogia estendendo-se até ao primeiro homem (Orig., Con Cels ii, 32). As Homilias Clementinas contêm similaridades que parecem ser alusões (iii. 63,65; xi, 20.23; xvii. 5; xviii. 16; xix. 2). Marcião adaptou esse Evangelho aos seus propósitos. De fato, se o Evangelho de Lucas não fosse de uso tão comum já há longo tempo, como poderia um erudito da envergadura de Origines tê-lo listado entre “aqueles quatro Evangelhos admitidos por todas as Igrejas debaixo do céu”? Godet (págs. 8,9) apresenta uma boa conjectura para alusões de Clemente de Roma no l2 séc., ao segundo documento de Lucas, Atos. No próprio NT, ele entende que a narrativa de João, até em sua expressão, alude ao Evangelho de Lucas e considera que a longa finalização de Marcos “dificilmente seja outra coisa que não uma reprodução condensada da narrativa de Lucas” (pág. 11).
E justo assumir que aposição do terceiro Evangelho, no cânon, era firme e original, considerando que nenhuma questão para debate foi levantada indicando mudança de atitude entre o tempo em que foi escrito e a aceitação universal do terceiro Evangelho, conforme verificado na parte final do 2° séc.; considerando que os líderes desses dois séculos claramente acreditaram que tinham uma tradição firme e original; considerando que essa crença é apoiada por várias evidências da existência e amplo uso do documento por toda a Igreja Primitiva, e considerando que nenhuma voz se levantou contra a autoridade desse gentio — não apóstolo.
10. Texto. Não faltam ao terceiro evangelho materiais textuais. Os cinco principais unciais (x,
A, B, C, D,) são as principais testemunhas em favor do texto. Todos esses, exceto o C (Códice Efraemita Reescrito) contêm o evangelho completo, enquanto o C tem uma longa lacuna entre os capítulos 12 e 19 e diversas lacunas menores por todo o livro. Dos MSS completos, B é, naturalmente, o rei das unciais, e o Alefe é o próximo na série. Onde esses dois concordam, o apoio para uma leitura geralmente é considerado muito forte. Como Plummer indica: “o elemento ocidental, que por vezes perturba o texto B, está quase inteiramente ausente nos Evangelhos” (pág. lxxii).
Esses unciais primários são reforçados por diversos outros (incluindo L, A, R, T, X, 2 e W). A essas somam-se várias centenas de manuscritos minúsculos, que contêm todo ou parte dos Evangelhos. Ainda que estes variem em importância, muitos deles são de valor considerável. Uma variedade de antigas VSS latina, copta e siríaca é também são muito úteis. Muitas dessas traduções refletem textos que antedatam os mais antigos unciais (que são do 42 séc.). Essas VSS representam grandes áreas geográficas. A latina inclui a africana, européia, a italiana e a Vulgata. A copta é menfítica, saídica, boaírica; siríaca é curetoniana, sinaítica, peshita, harcleana e palestina. Finalmente, as citações desde dos Textos dos Pais refletem antigos tipos de textos que fornecem uma base de comparação.
Descobertas relativamente recentes têm enriquecido os recursos da crítica. O Códice W (Washingtoniano), adquirido em 1906 por Mr. Freer, poderia ser listado como um sexto uncial primário. Ele contém somente os quatro evangelhos, mas ele é do fim do 42 ou 52 séc. O texto de Lucas é em parte do tipo alexandrino, e em parte do bizantino. O Manuscrito Coridentiano (0), um uncial dos quatro Evangelhos, foi publicado em 1913. Ele é em sua maior parte bizantino, exceto em Marcos, onde é parecido com dois grupos de manuscritos minúsculos com o qual ele tem sido agrupado na Família Teta ou Cesaréia. Entre os papiros, P45, o Papiro Chester Beatty I, datando do 2- ou 32 séc., tem sido notável. Originalmente o códice continha todos os quatro Evangelhos e Atos, mas a descoberta por volta de 1930 incluía somente certas folhas — sete no caso de Lucas. Em 1961 foi publicado o Papiro Bodmer XIV — XV (P75). Ele continha a maior parte de Lucas 3-24 em sua presente forma. Ele é comparado ao P45 de muitas maneiras.
Godet menciona cinco ou seis mil leituras variantes nos documentos de Lucas e diz que “em geral eles são de importância muito secundária e não envolvem mudanças em matéria de história do Evangelho” (pág. 48). Atarefa do crítico é simplificada pela tendência de certos MSS habitualmente caminharem juntos em oposição a outros, até que duas formas principais sejam estabelecidas — frequentemente os unciais mais antigos se agrupam contra os manuscritos minúsculos e os unciais menos antigos. O estudioso preciso não encontra substituto para cuidadosa análise e exegese em cada caso. Mesmo assim, ainda é apropriado falar do consenso geral do texto com as mais antigas VSS e com as citações dos Pais dos 22 e 32 sécs., e falar da uniformidade geral dos MSS nos quais o texto grego tem sido preservado. Como Godet diz: “Um texto tão universalmente difundido poderia proceder somente do texto que foi recebido do primeiro de todos” (pág. 46).
11. Problemas especiais. Visto que o interesse de Lucas é tão especificamente histórico, as questões mais sérias a serem levantadas com referência a seus escritos são acusações de inexatidão ao narrar os fatos. Essas acusações e detrações tomam quatro formas principais: (1) a inferência de que um interesse teológico tomou o lugar de uma preocupação genuína pela exatidão histórica;
(2) a acusação de que os fatos em Lucas estão eirados se comparados com a história secular; (3) a assertiva de que Lucas e Paulo se contradizem em seus relatos de fatos e eventos; e (4) a teoria de que os discursos e cânticos alegadamente relatados por Lucas são de sua própria autoria, nos quais ele usa o artifício literário de colocar suas próprias palavras na mente e boca de outros. Um quinto problema tem implicações históricas — a questão das alegadas diferenças teológicas entre Lucas e Paulo. Esta última seria séria apenas se tornassem impossível a tradicional ligação entre esses homens.
Muitos têm-se perturbado pelo fato de que quase tudo o que se conhece sobre Jesus vem de escritos de teólogos, ou pelo menos de homens que são crentes comprometidos com Jesus como o Cristo. Argumenta-se que o julgamento teológico sobre Jesus foi a mãe das narrativas dos Evangelhos, e não que os fatos narrados tenham demandado conclusões teológicas. Em outras palavras, alega-se que os Evangelhos não são testemunhas históricas sérias de Jesus de Nazaré, mas são simplesmente as opiniões teológicas da Igreja Primitiva adornadas e ilustradas por elementos de fato, lenda e mitologia, como pudessem ser utilizados para apresentação de seus pontos de vista. A impossibilidade, nesse conceito, de se distinguir o fato do mito ou lenda, tem levado muitas pessoas ao desespero de jamais recuperar o Jesus histórico. Por outro lado, o maior esforço de Formgeschichte é descascar as camadas de teologia a fim de chegar tão próximo quanto possível da verdade. Naturalmente, a suposição toda de que teologia e história estejam em desacordo é uma hipótese de dúvida não provada. Nenhum dos apóstolos teria admitido tal bipolaridade. Eles se consideravam testemunhas de fatos evidentes, que tinham levado eles mesmos e muitos outros a acreditarem que Jesus era de fato o Cristo. As “obras” de Jesus não eram invenção dos apóstolos e evangelistas para ilustrar a fé deles; a fé deles em parte dependia dessas “obras” e “sinais” (Lc 5.24; Jo 5.36). Dizer que Lucas tinha um interesse teológico definido não é dizer que história foi ajustada à teologia. Mais ainda, como D. Guthrie diz: “Lucas revela o significado teológico da história” (pág.88).
Lucas se expôs a ser atacado quanto à sua confiabilidade como historiador, pelo fato de ele, mais do que qualquer outro evangelista, ter seguido modelos históricos, ter relatado os eventos narrados com detalhes importantes do império e de afazeres do mundo, e ter empreendido grande esforço para fornecer um relato confiável. O principal ponto de ataque no Evangelho é o alistamento por ordem de Augusto no tempo de Quirino (Lc 2.1 -3). Críticos têm negado que em algum tempo Augusto tenha expedido um decreto ordenando um censo geral, que tal decreto tivesse afetado a Palestina do rei Herodes, que Quirino fosse governador quando Jesus nasceu, que Jesus tenha nascido na época de um censo e que um censo romano tivesse ocorrido com base em tribos. Sir William Ramsay e outros aceitaram o desafio. Particularmente como resultado do Was Christ Born in Bethlehem? (“Nasceu Cristo em Belém?”), de Ramsay, a reputação de Lucas quanto à precisão cresceu muito. Ainda que fontes contemporâneas não tenham certificado esse alistamento, as probabilidades agora estão do lado do relato de Lucas. Quirino foi por duas vezes o emissário imperial de Roma na Síria. Seu primeiro mandato parece ter sido como governador militar ou emissário ao mesmo tempo em que Varas estava ocupado como governador sobre os assuntos internos da Síria, por volta de 7 a 5 a.C. (Ramsay págs. 243ss.). Foi descoberto que um senso geral era feito pelos romanos a cada catorze anos. Lucas distingue esse “primeiro” censo do bem conhecido de 6 d.C. (At 5.37). Isso implicaria uma data aproximada de 8 a.C. para o começo do primeiro censo. Onde houve resistência, o alistamento levou muito tempo (e.g. quarenta anos na Gália. Veja Stauffer, Jesus and His History, págs. 21-32). Talvez Herodes tenha seguido os costumes tribais dos judeus para evitar resistência, mesmo ao preço de um atraso de dois ou três anos no primeiro censo. E. Harrison sugere que o primeiro censo possa ter durado quatorze anos, de modo que esse primeiro alistamento pode ter iniciado próximo à época do nascimento de Cristo e terminado na data mais conhecida de 6 d.C. Finalizar essa tarefa em tão curto tempo pode ter sido digno de nota (Introduction to the New Testament, pág. 194). Em qualquer caso, as possibilidades são contra Lucas ter sido descuidado em um ponto tão fácil de ser conferido, ao afirmar a um proeminente líder seu próprio cuidado quanto à exatidão, e usar detalhe histórico para dar consistência à sua mensagem central. Ramsay bem inquiriu, se Lucas cometeu um erro tão clamoroso quanto aos fatos concernentes ao nascimento de Cristo, como essas inexatidões teriam fugido à atenção dos inimigos do Evangelho no tempo de Roma? Historicamente, as probabilidades estão do lado da exatidão de Lucas. É possível até que o mais notável resultado, em um século de pesquisa do NT, seja a relativa justificação da exatidão histórica do autor de Lucas - Atos e sua presente condição como o primeiro real historiador da Igreja.
A acusação de contradição, entre os escritos de Lucas e os de Paulo, são mais aplicáveis a Atos do que ao Evangelho. Por exemplo, Paulo parece ter visitado Jerusalém três vezes de acordo com Atos (9.20ss.; 11.30; 15.2). A epístola aos Gálatas menciona somente duas ocasiões (1.16ss. e 2). O problema é criado pela pressuposição de que Paulo esteja fazendo uma lista de todas as suas visitas a Jerusalém e não apenas aquelas em que ele entrou em contato com os apóstolos. Ou, se Gálatas foi escrita antes do Concilio de Jerusalém, como alguns pensam, não há problema. Outros apontam para a circuncisão de Timóteo por Paulo (At 16.3) e a recusa de Paulo em circuncidar Tito (G12.3), mas Timóteo era em parte judeu e Tito não era. Lucas tende a registrar concessões de Paulo às práticas e desejos judaicos, enquanto Paulo insiste que ele nunca sacrificou o princípio da “liberdade no evangelho”. Basta dizer que nenhuma contradição direta foi provada — somente reflexos de um interesse diferente no significado dos eventos.
A questão da origem dos discursos registrados é mais frequente em relação a Atos do que ao Evangelho. Contudo, as palavras atribuídas a Maria, Isabel, Zacarias, Simeão e Ana, bem como os discursos do próprio Jesus, são notáveis exceções. É verdade que uma opção posta diante dos evangelistas era seguir Tucídetes e fazer o orador falar de um modo que parecesse ser o exigido pela ocasião, embora aderindo tanto quanto possível ao consenso geral do que realmente foi dito (History of the Peloponnesian War, 1.22.1). Admite-se que alguns gregos tenham usado o método de Tucídetes sem cuidado consciente. Outros criticaram severamente a invenção de discursos e consideram tarefa do historiador o registro do que realmente foi dito. (R. Grant, A Historical Introduction to the New Testament, pág. 141). Não há evidencia de que Lucas tenha se afastado do seu cuidadoso método histórico quando ele introduziu os discursos. Onde é possível conferir (como entre Mc 13 e Lc 21), os resultados são favoráveis ao relato correto. Os detalhes íntimos concernentes a Maria, as declarações proféticas e os hinos de louvor não são inventados para expressar a reação de Lucas: eles são apresentados apenas porque iluminam o significado do evento — o evento sobre o qual o livro é escrito — o advento do Cristo. Mesmo as variações do Sermão do Monte (Mt 5.7) e o Sermão na Planície (Lc 6.17-49) pode sem dúvida indicar apenas que eles alegam apresentar — dois sermões diferentes de Cristo, ao invés dos sermões de dois evangelistas. Não é provável que Jesus, como outros rabinos, repetisse seus principais ensinamentos, de tempos em tempos, de diferentes formas convenientes a ocasiões variadas?
O quinto problema, o das diferenças teológicas entre os Atos e Paulo, está relacionado à questão da autoria de Lucas — Atos. Tem sido afirmado que os registros de Lucas, sobre os ensinamentos de Paulo, diferem tão radicalmente da apresentação do próprio Paulo, que o autor não estava familiarizado com Paulo. Em Atos não há sinal das tensões refletidas em Gálatas, onde a lei é tida como conduzindo à escravidão da qual Cristo libertou o homem. D. Guthrie bem diz, porém, que não há base para exigir que Lucas apresente a teologia de Paulo, em seu livro histórico, precisamente na mesma forma que Paulo a apresenta em suas cartas práticas e didáticas. O próprio Paulo acomodou se às circunstâncias. Ele circuncidou o judeu Timóteo, mas rejeitou a circuncisão como meio de salvação (Rm 2.25). Ele concordou com concessões ao padrão cultural judaico para os gentios que procuravam Jerusalém em busca de orientação (Atos 15.25-29), mas depois, nos distantes campos missionários, ele não exigiu tal conformidade (Rm 14.2,3). Realmente não é mais difícil estabelecer a harmonia teológica entre Lucas e Paulo, do que demonstrar consistência no pensamento e ação de Paulo.
12. Conteúdo. Em um sentido único, o terceiro evangelho retrata Jesus como o divino Redentor, que veio buscar e salvar aqueles que se haviam perdido. O relato começa antes da anunciação a Zacarias e Maria, e termina com a ascensão aos céus. Posta no contexto de completa divindade, a perfeita humanidade de Jesus é revelada com mais detalhes do que em qualquer outro Evangelho. Lucas dá o mais completo relato do nascimento, infância, crescimento, vida doméstica e social de Jesus, mas enfatizou que ele veio como Salvador e Redentor. Cristo é retratado não tanto como o Messias do AT, mas como o Redentor de todo o mundo. De tempo em tempo é enfatizado o ponto de que o reino está aberto a todas as raças e condições dos homens — samaritanos e pagãos, bem como judeus; pobres tanto quanto ricos; réprobos, publicanos e pecadores, bem como pessoas respeitáveis, e mulheres bem como homens. E o evangelho universal do Salvador de todos os homens.
E também o evangelho do Espírito Santo. O Espírito Santo é o segredo do próprio ministério de Cristo (Lc 4.18ss.). O espírito humano pulsa com oração, louvor, alegria, perdão, choro, amor, amizade, sabedoria, compreensão, glória e autoridade. Observações sobre tempo e lugar são mais frequentes do que nos outros Evangelhos. O interesse biográfico é mais intenso, mas o tema de união em todo esse Evangelho é o propósito salvífico de Cristo.
O que quer que se diga sobre fontes e independência, Lucas compartilha da “tríplice tradição” com ambos os outros Evangelhos sinópticos e a “dupla tradição” com Mateus no sentido de usar ao seu próprio modo o corpo geral de materiais ao qual todos eles tinham acesso e em que todos eles estavam interessados. A esses Lucas acrescenta materiais significativos e peculiares a ele próprio, arranjando o todo “em ordem”, por vezes cronologicamente e algumas vezes logicamente. Os primeiros dois capítulos, registrando o nascimento de João Batista, a anunciação, a adoração dos pastores e a circuncisão de Jesus, sua apresentação no Templo e a visita a Jerusalém com a idade de doze anos, são de forte caráter semita. Ramsay faz uma boa defesa de Maria como a fonte de informação de Lucas (Was ChristBom at Bethlehem? págs. 73-91). A passagem longa (9.51—18.14) e a passagem curta (19.1-28) são também peculiares a Lucas. Juntas elas contêm dezesseis das vinte e três parábolas em Lucas e muitos dos eventos mais interessantes na vida de Cristo. O assim chamado ministério da Peréia ocupa uma parte proeminente nessa seção. O livro pode ser esboçado brevemente como segue:
I. Prólogo (1.1-4)
II. Narrativas da natividade (1.5—2.52)
III. Preparação para o ministério (3.1—4.13)
A. Missão de João Batista (3.1-20)
B. Batismo de Jesus (3.21,22)
C. Genealogia de Jesus (3.23-38)
D. Tentação de Jesus (4.1-13)
IV. Ministério na Galileia (4.14—9.50)
A. Ministério inicial na Galileia(4.14—7.50)
B. Ministério posterior na Galileia (8.1—19.6)
C. Viagem em direção norte (9.7-50)
V. Ministério final na Judéia e Peréia
(9.51—19.28)
A. A caminho de Jerusalém (9.51—11.54)
B. Palavras e obras poderosas (12.1—19.27)
VI. Paixão e triunfo (19.28—24.53)
A. Encerramento do ministério em Jerusalém (19.28—21.38)
B. Traição, julgamento e morte (cap. 22; 23)
C. Ressurreição e aparições (24.1-49)
D. Ascensão (24.50-53)
13. Teologia. Lucas é antes de tudo um historiador dos acontecimentos do Evangelho e só secundariamente um teólogo (E. F. Scott, “The New Criticism of the Gospel”, H. Th. R., abril 1926, págs. 143s.). O Evangelho, como ele o conhece, é cheio de dados e implicações teológicas, mas ele os relata como recebeu, em vez de como inventor ou teórico (J. Creed, The Gospel According to St. Luke, pág. lxxi). E importante tratar a “teologia” de Lucas à luz dessa informalidade básica, sem lhe impor um determinado sistema de teologia.
Lucas pode ser chamado de paulinista, no sentido de que ele compartilha com grande convicção a posição de Paulo como o grande apologista da missão junto aos gentio. Tudo aponta para o fato de que o Evangelho é para todos. Por outro lado, pouco ou nada é dito no Evangelho que sei a diretamente ligado às controvérsias de Paulo. Cristo sem dúvida sofreu, o que as Escrituras proféticas predisseram, mas nenhuma teologia adicional da cruz é elaborada para explicar a redenção. Lucas não menciona a morte do Filho do homem como “o resgate de muitos” (como Mc 10.45), ou se refere ao cálice como “o sangue da aliança derramado por muitos”. Ele se satisfaz com a força implícita dos eventos relatados e o retrato do Redentor.
O reino de Deus ocupa lugar central no Evangelho como “o exercício do governo de Deus”, que também tem seu aspecto escatológico na súbita volta do Filho do homem (Lc 17.22s. e 21.35,36). Jesus é o Cristo, o Filho do homem, o Redentor, o Senhor. Os fatos quanto à sua origem celestial, seu nascimento virginal, sua pessoa divina, suas obras e o resultado de sua paixão falam por si mesmos. Não é necessário acrescentar nenhuma cristologia elaborada. Ele é o Salvador.
Do mesmo modo informal Lucas revela uma implícita “teologia do Espírito”. Cristo ministrou no poder do Espírito (Lc 14.18s.) e prometeu o mesmo aos seus seguidores (24.49) — uma promessa que foi cumprida no início de Atos (2.4) e que se tomou um tema dominante daquele livro.
BIBLIOGRAFIA.
W. Hobart, The Medical Language of Luke (1882), 1-297; F. Godet, A Commentary on the Gospel of Luke, 2 vol. (1893), 1-49; APlummer, “Commentary on Luke”, International Critical Commentary (1896), xi-lxxxv; W. Ramsay, Was Christ Born at Bethlehem? (1898), 1-280; W. Ramsay, Luke the Physician
(1908) 1-418; A. Hamack, Luke the Physician (1908), 1-198; A. Bruce, “The Gospel According to Luke”, The Expositor’s Greek Testament (1910), 44-60; D. Hayes, The Most Beautiful Book Ever Written (1913), 1-183; D. Hayes, The Synoptic Gospels and the Book of Acts (1919); 177-216 ; B. Streeter, The Four Gospels (1925), 150-364; J. Moffatt, Introduction to the Literature of the New Testament (1925), 261-314; V. Taylor, Behind the Third Gospel (1926), 1-280; H. Cadbury, The Making of Luke—Acts (1927), 213-368; A. Robertson, Luke The Historian in the Light of Research (1930), 1-29; J. Creed, The Gospel According St. Luke (1950), xi-lxxxvi; N. Geldenhuys, Commentary on the Gospel of St. Luke
(1952), 15-50; N. Stonehouse, The Witness of Luke to Christ (1951), 9-67; P. Parker, The Gospel Before Mark
(1953), 1-249; W. Arndt, The Gospel According to St
Luke (1956), 1-36; E. Stauffer, Jesus and His History
(1960), 21-32; H. Conzelmann, The Theology of St. Lake (1960), 9-17, 95-234; W. Farmer, “A Skeleton in the Closet of Gospel Research’', Biblical Research, VI
(1961), 18-42; R. Grant, Historical Introduction to the New Testament (1963), 133-147; E. Harrison, Introduction to the New Testament (1964), 184-199; W. Farmer, The Synoptic Problem (1964), 1-308; D. Guthrie, New Testament Introduction, The Gospels and Acts (1965), 84-113; H. Meinell, “The Synoptic Problem: Some Unorthodox Solutions”, Theology LXX (1967), 386-397; “Gospel of Luke”, Review and Expositor LXIV, 4 (1967), uma completa edição dos estudos de Lucas.
W. T. Dayton


LUCAS, O EVANGELISTA
 (Aoyrâç, usado em inscrições como apelido abreviado de Ao-ókioç, e Lúcio em latim). Alguns MSS 52 séc. relacionam o nome com AotiKcxvóç, chamando o terceiro evangelho de Kata Lucaniim.
1. Identidade. Lucas é mencionado nominalmente apenas três vezes no NT — todas por Paulo quando na prisão (Cl 4.14; 2Tm 4.11; Fm 24). Ele nunca menciona seu próprio nome em seus escritos a não ser em uma leitura armênia de Atos 20.13, baseado em um texto “Ocidental” que diz: “Eu Lucas” (F. F. Bruce, TheActs of the Apostles, pág. 5). Contudo, sua identidade certamente era conhecida por Teófilo e sem dúvida pelo público leitor da época. Lucas identifica-se até certo ponto em Atos quando usa a expressão “nós”. Todos os líderes associados a Paulo (mencionados nas epístolas) são eliminados, da possível autoria, pelos dados em Atos, exceto Tito e Lucas. Visto que não se pode conjecturar a possibilidade de se tratar de Tito, Lucas implica sua própria autoria. Essa inferência é apoiada pela unânime tradição primitiva. Há, pois, referências autobiográficas válidas, feitas por Lucas, particularmente em Atos. Sua personalidade também é mostrada no Evangelho.
Lucas era um gentio, não “da circuncisão” (Cl 4.10-14). Sua habilidade no uso do grego, com seus pontos de vista e atitudes (e.g. “os bárbaros”, At 28.2,4) marcam-no como um grego. Ele era médico, viajante, missionário e escritor.
2. Pano de Fundo. Ele nasceu provavelmente na Síria. E o que dizem Jerônimo (De Vir. 111., vii) e Eusébio (Hist. Eccl. III. 4. 7). Lucas mostra interesse incomum por Antioquia (At 6.5;11.19-27; 13.1; 14.19,21,26; 15.22,23,30,35;18.22). Até mesmo Ramsay concordou em que ele era nascido em Antioquia, de uma família macedônia (St. Paul the Travaller and Roman Citizen, pág. xxxviii). Alguns pensam que ele era irmão de Tito (2Co 8.18; 12.18). Sendo assim, isso ajuda a responder o silêncio de Atos sobre Tito. D. Hayes conjetura que Paulo pode ter conhecido Lucas na Universidade de Tarso, nos tempos de estudantes (The Most Beautifiá Book Ever Written, pág. 21). Ele sugere também que Lucas pode ter conhecido do poeta latino Lucano, sobrinho de Gálio e Sêneca — uma possível causa da tolerância de Gálio para com Paulo em Atos 18.12-17 (pp 7-12).
Alguns pensam que Lucas pode ter sido um liberto. Nomes com contrações terminando em as eram particularmente comuns entre escravos. Senhores gregos e romanos frequentemente educavam escravos como médicos e depois os libertavam pelos seus serviços (Hayes, pág. 46). Conjetura-se que ele pode ter nascido na casa de Teófilo, um rico oficial do governo de Antioquia (Lc 1.3).
3. Médico missionário. Se a leitura do Códice D em Atos 11.27s. estiver correta, Paulo pode ter conhecido Lucas em Antioquia. Pelo menos em Trôade, na segunda viagem, Lucas se reuniu a Paulo e esteve com ele pelo menos intermitentemente até o final aprisionamento de Paulo em Roma. O médico amado não apenas amparou a frágil saúde de Paulo, tendo talvez acrescentado anos à vida dele, mas também praticava a medicina ocasionalmente em suas viagens. A palavra para “curado” (Atos 28.8-10) significa “tratado por médico”. Lucas compartilhou o trabalho e as recompensas. Lucas também compartilhou o chamado e os trabalhos de pregação (16.10-13). Ele foi provavelmente o primeiro médico missionário treinado em universidade.
4. O historiador. Lucas era um historiador capaz e deliberado, tendo escrito mais da quarta parte do NT — mais do que qualquer outro homem. A pesquisa moderna tem justificado a qualidade da sua obra. De acordo com a lenda, Lucas era pintor. Na verdade, ele fez o registro da verdade que forneceu inspiração e assuntos para a arte sacra.

BIBLIOGRAFIA.
W. Hobart, The Medicai Language of St. Lucas (1882), xxix-xxxvi, 1-297; A. Plummer, The Gospel According to St Luke (1898), xi-xxii; W. Ramsay, Luke the Physician (1908), 3-68; A. Hamack, Luke the Physician (1909), 1-198; D. Hayes, The Most Beautifid Book Ever Written (1913), 3-54; H. Cadbury,The Making of Luke—Acts (1927), 213-368; A. Robertson, Lake the Historian in the Light of Research (1930), 1-29; R Bruce, The Acts of the Apostles (1951), 6-8; N. Geldenhuys, Commentary’ on the Gospel of Luke (1952), 15-22,39,40; J. Backer, “Luke, the Critical Evangelist” Exp T, 68 (1956-1957), 123-125.

W. T. Dayton

Texto extraído da Enciclopédia Merril Tenney vol 3 págs 1014-1025 Editora Cultura cristã,1° edição 2008.
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sábado, 21 de março de 2015

Preciso de sua Ajuda

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Amados,Sou o dono e fundador deste blog euvoupraebd,o Escriba é meu convidado administrador á alguns anos,abaixo transcrevo uma mensagem de pedido de ajuda postado no fórum gospel book e resolvi postar aqui pra que possamos socorrê-lo,leia atentamente,esta mensagem é verdadeira,vamos ajudar a quem contribuiu para seu ministério dominical.

Escriba disse:

alguns anos venho trabalhando nesse Blog de Escola com vocês sem nada exigir de ninguém, pois meu único objetivo foi e sempre será o de servir. Hoje me encontro em uma situação difícil pelas longas horas que passo diante do computador e alguns problemas orgânicos. Depois de muitas dores e irritação nos olhos procurei um oftalmologista para avaliar minha real situação. 
Ele depois de me avaliar informou que estou com problema de Pterígio. Ele está a cada dia invadindo os meus olhos, próximo de alcançar e menina dos olhos. Por isso, para não ficar com sérios problemas de visão preciso urgentemente fazer uma cirurgia na visão. O médico que me avaliou me informou que o tipo de cirurgia que ele deseja fazer em meus olhos o SUS não cobre. Normalmente a cirurgia que o SUS cobre são as cirurgias tradicionais, onde há 45% de chance do Pterígio voltar, no entanto a que ele pretende fazer há apenas 3% de chance. 
O valor da cirurgia é de R$ 1,500,00. Apesar de precisar urgentemente da cirurgia não me encontro em condições financeiras para pagar essa cirurgia. Por isso, é com muita angustia em ato de desespero que venho apelar para os irmãos e amigos que me ajudem nessa batalha que estou enfrentando. Qualquer quantia é bem vinda. Para mim é muito constrangedor ter que me expor dessa forma, mas entendo que esta é a única forma que tenho no momento de conseguir esse dinheiro e continuar fazendo o que gosto de fazer, servir. Se você não quer ou não pode me ajudar por favor não me julgue nem me critique por tal ato. Só eu e Deus sei como foi difícil para mim fazer esta campanha me expondo dessa forma. Conto com sua compreensão e ajuda.

Dados para depósito


CONTA POUPANÇA
Ana Maria da Silva
Caixa Econômica: Nº 0055
Conta: 0050440-0
DV:013


Quando fizer algum depósito me avisa dia e valor por gentileza. Pois essa é a conta de uma amiga.

Escriba Digital : gospel.book@hotmail.com 

Amados, confesso que estou preocupado, pois estou vendo o tempo passar e não tive ainda condições de realizar a cirurgia que tanto preciso,  mas também tenho a consciência que não posso exigir nada de ninguém pois ninguém é obrigado a me ajudar. A única coisa que posso fazer é apelar para a sensibilidade de todos aqueles que podem fazer algo por mim que por favor não deixe de fazer pois no momento preciso muito dessa cirurgia.
Algumas pessoas estão deixando de me ajudar pois acham que ajudar com uma contribuição pequena não vale apena. Amados, o que para muitos parece ser uma contribuição pequena para mim é uma grande ajuda.Contribua conforme suas forças amados,me ajude com o que puder. 

Deus abençoe a todos.
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quinta-feira, 19 de março de 2015

Vídeo Aula da Lição 12 - Não Cobiçarás

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Autor: Pastor Luiz Henrique
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Lição 12 - Não Cobiçarás

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O Decálogo conclui com um mandamento que proíbe o desejo ilícito, a cobiça sem sugestão alguma de ato, pois diz respeito primariamente à motivação, e não à ação concreta. A cobiça é um mal devastador muito comum ainda hoje em nossa cultura ocidental materialista. Trata-se de uma atitude de natureza interna que pode expressar-se em ato real. Toda ação boa ou ruim começa no pensamento. Os outros mandamentos proíbem atos; aqui, a proibição diz respeito ao desejo, não ao desejo em si, mas ao desejo daquilo que pertence a outro. Não é pecado desejar bens e conforto, as coisas boas de que necessitamos na vida.



O décimo mandamento aborda a responsabilidade do israelita sobre o pecado do pensamento. É um recurso divino que Deus proveu para habilitar o israelita a obedecer os mandamentos anteriores. A cobiça é um dos piores pecados, o pecado que não se vê. Essa é a sua característica distintiva em relação aos outros, pois não é possível ser conhecido. Isso mostra que o Legislador divino é onisciente, pois ele conhece o mais íntimo do coração humano, nossos desejos e intenções (1 Rs 8.39; 1 Cr 28.9; Jr 17.10; At 1.24). Deus se interessa não só pelos corretos atos concretos, não apenas pelo cerimonialismo na adoração, mas principalmente pela pureza de um coração sincero. Isso mostra o lado espiritual do Decálogo; nem tudo é apenas jurídico. A ideia central é não desejar aquilo que pertence ao outro.
Já vimos que o Decálogo está estruturado em duas seções identificadas com a primeira e a segunda tábuas, as tábuas de pedra em que foram escritos os Dez Mandamentos, literalmente as dez palavras. A primeira contém os compromissos do israelita diante de Deus, e a segunda de sua responsabilidade para com o próximo. Os dois grandes mandamentos citados por Jesus podem ser um resumo dessas duas tábuas. Esses mandamentos estão dispostos numa sequência lógica. O quinto mandamento é uma ponte que une o conteúdo das duas tábuas. Em seguida vem a proteção da vida: Não matarás"; depois a proteção da família: "Não adulterarás"; a proteção da propriedade: "Não furtarás"; a proteção da honra: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo"; e o último protege o israelita de ambições erradas.

EXEGESE DO DÉCIMO MANDAMENTO

O verbo hebraico hãmad,131 "desejar, ter prazer em, cobiçar, ter concupiscência de", aparece 14 vezes no Antigo Testamento. O termo em si é neutro e se aplica também a coisas boas (SI 19.10 [11]; 68.16 [17]). Essa palavra é repetida no décimo mandamento no texto de Êxodo 20.17 e uma só vez no registro do Decálogo, em Deuteronômio 5.21: "E não cobiçarás a mulher do teu próximo". Na segunda cláusula, "e não desejarás a casa do teu próximo", aparece outro verbo ’ãwãh,' desejar ardentemente, ansiar, cobiçar, anelar". Ambos os verbos aparecem como sinônimos no relato da tentação do Éden: "agradável aos olhos... e desejável para dar entendimento" (Gn 3.6). A Septuaginta traduz pelo verbo epithyméõ,133 literalmente "fixar desejo sobre", da preposição epí,] "sobre", e do substantivo thymós, paixão, ira, furor".
Esse verbo grego aparece no Novo Testamento para se referir ao décimo mandamento (Rm 7.7; 13.9) e também para expressar desejo por tudo o que é proibido (Mt 5.28; 1 Co 10.6). O substantivo derivado dele, epithymia,136 é usado para "concupiscência" em 1 João 2.16: "Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo". Concupiscência é desejo desordenado; trata- -se do "forte e continuado desejo de fazer ou de ter o que Deus não quer que façamos ou tenhamos" (KASCHEL & ZIMMER, 2006, p. 45). Mas todos esses termos, hebraicos e gregos, são neutros, podendo se referir a coisas boas ou a coisas más, dependendo do contexto (Mt5.28; 13.17).
O formato textual do décimo mandamento de Êxodo 20.17 é diferente do registro de Deuteronômio 5.21, mas não divergente:
Os católicos romanos e os luteranos mantiveram a tradição catequética medieval do Decálogo esboçada por Agostinho de Hipona e que predominou durante a Idade Média. Os dois primeiros mandamentos são considerados um só, e o décimo é dividido em dois. "Não cobiçarás a casa do teu próximo" é o nono, e Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Êx 20.17), o décimo. Qualquer pessoa pode observar sem muito esforço que tal arranjo e uma camisa de força, pois não corresponde à divisão natural (Êx 20.1-17; Dt 5.7-21). Além disso, o Decálogo do catolicismo romano não é bíblico, trata-se de uma interpretação com lentes papistas. Nós seguimos o arranjo das igrejas ortodoxas e protestantes reformadas, que vem desde os antigos judeus (JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro 3, 4.113, edição CPAD).
O décimo mandamento aparece expandido em Deuteronômio em relação ao texto de Êxodo e inclui o campo do próximo na lista das coisas que não devem ser cobiçadas. Alguns críticos estranham a inversão das cláusulas, pois a fraseologia de Êxodo começa por não cobiçar a casa do próximo e em seguida vem a proibição de não cobiçar a mulher do próximo, mas em Deuteronômio essa ordem é invertida: primeiro vem a mulher e depois a casa. Ambos textos, contudo, proíbem a cobiça de bens e pessoas-, além da mulher ou do esposo, pois a mulher pode também cobiçar o marido alheio, o servo e a serva do próximo; propriedades, casa e campo; o termo "casa" aparece muitas vezes na Bíblia com o sentido de "família" (Js 24.15; At 16.31), mas parece não ser essa a ideia aqui; e semoventes: boi, jumento ou qualquer outra coisa. A frase final "nem coisa alguma do teu próximo" inclui posição social ou ascensão no trabalho.
Há discussão sobre a substituição de hãmad por’ ãwãh na segunda cláusula do décimo mandamento (Dt 5.21). O verbo hãmad aqui aparece com a esposa do próximo e’ ãwãh com as demais coisas. Isso pode levar alguém a pensar em hãmad como um tipo sensual de desejo, mas isso não procede por duas razões principais: a) é usado para bens móveis e imóveis (Js 7.21; Mq 2.2); b) ambos os termos aparecem como sinônimos (Gn 3.6; Pv 6.25; Sl 68.17). Parece que 'ãwãh diz respeito a um tipo de desejo casual. O formato textual de Êxodo está adaptado ao estilo nômade de vida de Israel no deserto, ao passo que Deuteronômio, quase 40 anos depois, é o modelo para o povo prestes a ser estabelecido na terra de Canaã como país.

OS FATOS

Os relatos bíblicos estão repletos de cobiças destruidoras, a começar pelo primeiro casal. "E vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela" (Gn 3.6). Aqui se expressa exatamente o que afirma o Novo Testamento: "a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida" (1 Jo 2.16).
Os irmãos de José desejavam a posição dele no coração de seu pai, Jacó (Gn 37.4). A cobiça causou a ruína de Acã: "Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata e, uma cunha de ouro do peso de cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, debaixo dela" Os 7.21). O verbo "cobiçar" aqui é hãmad, o mesmo usado no Decálogo (Êx 20.17; Dt 5.21). Acã cobiçou e se apropriou dos despojos de Jericó, objetos que não lhes pertencia (Js 6.19).
O rei Acabe cobiçou vinha de Nabote e isso resultou num escândalo nacional que levou à ruína a casa real (1 Rs 21.1-16). Ele e sua esposa, Jezabel, violaram o sexto mandamento: "Não matarás"; o oitavo: "Não furtarás"; o nono: "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo"; e o décimo: "Não cobiçarás". Dois outros casos de cobiça aconteceram na casa de Davi: seu filho Amnom violentou a própria irmã, Tamar, movido pela lascívia (2 Sm 13.15), e Absalão desejou ocupar o trono de seu pai enquanto Davi ainda era vivo e reinava em Israel (2 Sm 15.16).
No Novo Testamento, encontramos Ananias e Safira, que desejavam prestígio na Igreja, mas tentaram consegui-lo de maneira pecaminosa (At 5.1-11). Simão Mago, de Samaria, tentou comprar os dons de Deus com dinheiro, pois almejava poderes sobrenaturais para ostentação pessoal (At 8.18). Diótrefes, personagem desconhecida, cuja única menção no Novo Testamento é desabonadora, já que ele procurava ter o primado na Igreja (3 Jo 9).

O DÉCIMO MANDAMENTO NO NOVO TESTAMENTO

O mandamento "Não cobiçarás..." se distingue dos outros nove por se tratar da motivação, e não do ato. Assim, é possível violar esse preceito sem que haja comprovação concreta. É o décimo mandamento que golpeia a própria raiz do pecado, o coração pecaminoso e o desejo perverso. O Senhor Jesus disse que é do mais íntimo do ser humano que procede todo o tipo de pecado: "Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem" (Mc 7.21 -23). A lista de Mateus é mais curta (Mt 15.19). Essas palavras mostram a dura realidade: o que o ser humano realmente é, isso afeta o que ele diz (Mt 12.34, 35). Toda ação humana começa no seu coração (Tg 1.14, 15).
O décimo mandamento era o recurso divino para o israelita se proteger de não violar nenhum dos mandamentos do Decálogo. Mas, na graça, somos guiados pelo Espírito Santo, o qual controla os nossos desejos. Assim, o preceito aqui em foco foi adaptado pela graça. Cabe a cada um vigiar e orar para não entrar pelo caminho da cobiça. Jesus disse: "Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui" (Lc 12.15). A avareza é o apego demasiado e sórdido ao dinheiro, é o desejo de adquirir e acumular riquezas. Desse modo, os bens materiais se transformam em deus para os tais avarentos. A Bíblia afirma que a avareza é idolatria: "Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, o apetite desordenado, a vil concupiscência e a avareza, que é idolatria" (Cl 3.5).
A avareza e a cobiça caminham juntas. Ambas são impróprias para quem busca o reino de Deus (1 Tm 6.9, 10). Essas coisas são próprias para quem teme o futuro, desconfia de Deus e da sua providência. Não somente a avareza, mas também a inveja, pertence a esse grupo de pecados. A inveja é o "sentimento de pesar pelo bem e pela felicidade de outra pessoa, junto com o desejo de ter isso para si" (KASCHEL & ZIMMER, 2006, p. 90). Todas essas coisas envolvem a cobiça, e a Palavra de Deus afirma com todas as letras que a cobiça é pecado (Rm 7.7).
A vontade de Deus expressa nesse último mandamento do Decálogo é que haja pleno contentamento com aquilo que temos e com a nossa condição: "Contentai-vos com o vosso soldo" (Lc 3.14), ensino de João Batista para os militares. "Mas é grande ganho a piedade com contentamento" (1 Tm 6.6). Quem tem Jesus não está obcecado pelas riquezas materiais, pois tem em seu interior algo muito mais valioso que os tesouros do mundo. A NTLH traduz esse versículo da seguinte forma: "É claro que a religião é uma fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem. A Bíblia nos exorta ainda: "contentando-vos com o que tendes" (Hb 13.5). Há aqui certo paralelo com Filipenses 4.11. Mas convém ressaltar que todas essas exortações não são uma apologia à pobreza nem uma defesa do status quo econômico; é uma recomendação para que nossos desejos não vendam desagradar a Deus nem causar danos ao nosso próximo (Rm 12.15).

A conduta do cristão deve ser a de se alegrar com que os se alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15). Ninguém deve ser dominado pela inveja (G1 5.26; Tg 4.14-16) nem alimentar o sentimento de tristeza pelo sucesso alheio (Ne2.10; Sl 112.9,10). Glorifique a Deus pelas bênçãos e pelo sucesso do seu irmão, e você será abençoado também, a seu tempo (Ec 3.1-8).
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